Não Cresça!

Vou lhe compartilhar um pensamento que talvez pareça um pouco radical, contra-senso, complexo de Peter-Pan  ou que é da influência hippie e comunista que recebi dos meus pais quando criança, porém, caso você esteja iniciando uma empresa nesse momento, permita lhe dar uma pequena sugestão: “Não Cresça!”.

Essa minha humilde opinião é oriunda da constatação de que as empresas ditas como “grandes” têm uma complexidade de funcionamento e de pensamento tão evidente, que simplesmente é muito difícil ou até mesmo impossível fazer as coisas certas acontecerem nessas organizações.

É sério meu amigo(a), não cresça! Pois ao crescer paradoxalmente apesar aumentar seu faturamento em curto prazo, a empresa grande fica mais distante dos clientes a cada nova “Demonstração do Resultado do Exercício”.

Será exagero meu? Pense bem, quantas empresas você conhece que ao iniciar suas operações tinham uma qualidade de produto ou de serviço espetacular e ao crescer, essa qualidade foi sendo engolida pelo jeito “corporativo” de ser?

Quanto maior for a empresa, maior será sua complexidade humana e, isso significa que são mais conflitos acontecendo, mais jogos políticos, mais hierarquia, mas ruído das comunicações, que conseqüentemente os processos serão mais complexos, mais lentos e principalmente muito mais CAROS, afinal essas são empresas “grandes” e se orgulham disso, pois acreditam que dessa forma, elas estão “melhor organizadas”.

Observe que na verdade há uma diferença das empresas que realmente são grandes e as que assumem uma fantasia de “grandes”, ou seja, talvez a chave para o sucesso para essas organizações seja exatamente funcionar como empresas menores, ou melhor, como várias empresas pequenas dentro uma só.

Na verdade escuto esse mantra da administração desde meados da década de 90, porém, essa idéia foi ganhando força em minha vida nos últimos anos ao lidar principalmente com as mudanças culturais sugeridas pela Agilidade em projetos de desenvolvimento de software, pois essas mudanças culturais fazem parte do que tem sido conhecido como Pensamento 2.0.

 Mas calma, nem tudo está perdido, se você está em “pleno crescimento” de sua empresa, não se preocupe, não precisa “parar de crescer”, você vai continuar ganhando dinheiro, pois assim como sua empresa está crescendo, também outras empresas o estão, ou seja, nesse “oceano vermelho” de empresas grandes, mesmo que sua empresa seja grande, ainda sim haverá outras empresas maiores e mais complexas que a sua; Então aí (ainda) reside sua vantagem competitiva, pelo menos até sua empresa ser maior que elas.

Para finalizar, como mencionei no início do texto de minhas influências familiares, deixo aqui para sua reflexão, uma frase adaptada de Che Guevara que desde minha infância fora uma constante em minha vida: “Endurecer (crescer) sim, porém, perder a ternura (flexibilidade) jamais”.

 

Sobre o autor:

Manoel Pimentel, CSP

Manoel Pimentel, CSP

É Engenheiro de Software, com 15 anos na área de TI, atualmente trabalha como Coach em Agile, Lean e TOC para empresas do segmento de serviço, financeiro e bancário. É Diretor Editorial da Revista Visão Ágil e Editor Chefe da InfoQ Brasil, Já escreveu sobre agile para importantes portais e revistas do Brasil e exterior e Também palestrou em eventos nacionais e internacionais sobre agilidade. Possui as certificações CSM e CSP da Scrum Alliance e foi um dos pioneiros na utilização e divulgação de métodos ágeis no Brasil.

Contatos: manoel@visaoagil.com

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6 thoughts on “Não Cresça!

  1. Manoel,

    O pior de tudo é ver os clientes ainda entrando na conversa destas empresas grandes cheias de “selinhos” que garantem uma pseudo qualidade. Aí um executivo vira para o outro: “Meu software foi desenvolvido pela XYZ”. Uau, pagou milhões e as pessoas que usam de fato o software vivem reclamando silenciosamente a falta de qualidade do sistema!

  2. Excelente Post, Manoel…

    Talvez isso não se aplique pra todas as indústrias, mas como acho que a de Software é tão parecida com a de “arte”, isso acaba acontecendo.

    Talvez a questão não seja “não crescer”, mas o aprendizado pra crescer com qualidade, a maturidade que é necessária, simplesmente leve mais tempo que o tempo do mercado. Isso acontece porque Software é um trem muito diferente, ainda muito intangível e fazer bom software envolve toda uma cultura da organização e dos clientes.

    Pra fazer uma obra de arte, você é aprendiz por um bom tempo, ajuda algum “mestre” um tempo, e só depois fica gabaritado para fazer e assinar suas próprias Obras . Isso limita muito a produtividade.
    Nenhum artista produz obras-primas em série. :) E é isso que a gente vem tentando fazer com software, atingindo péssimos resultados.

  3. Olá Manoel,

    Perfeito nas palavras! Essas provocam uma grande reflexão naqueles que acham e/ou querem ser grandes o mais rápido possível para na maioria das vezes, apenas serem “grandes”.

    Muito pertinente o comentário do Renato Willi também pois tenho dito por ai que Leonardo Da Vinci não teria pintado as obras que pintou ou criado o que criou se tivesse alguém com um 38 apontando pra sua cabeça gritando: “pinta c…!”

    Desenvolver software é uma arte sim, é preciso inspiração para fazer a coisa certa mas é preciso também técnica e uma boa metodologia para ficar bem feito!

  4. Manoel

    É uma boa metáfora!

    Ao ver o título me lembrei que na década de 70 ouvi muitas metáforas e comparações baseadas na frase “small is beautiful”. O gerente do departamento onde eu trabalhava na época (uma grande “empresa grande”) gostou muito de um livro que havia lido com esse título. Nunca li o livro, e agora fui pesquisar na internet e vi que foi lançado em 73 com o título é bastante sugestivo: “Small Is Beautiful: Economics as if People Mattered” do economista inglês E. F. Schumacher.

    Se me lembro bem, os conceitos foram debatidos nos anos seguintes na imprensa especializada (tenho a impressão que houve uma publicação em português sobre o mesmo tema)

    http://en.wikipedia.org/wiki/Small_is_Beautiful
    http://www.amazon.com/Small-Beautiful-Economics-People-Mattered/dp/0060916303

  5. Olá Manoel,

    Belo artigo, acredito que o jeito “corporativo” de ser acaba por afastar e complicar as relações internas de comunicação e processos existentes nas pequenas empresa, perdendo-se assim ao longo do tempo a qualidade nos produtos gerados.

    É lamentável a visão dos presidentes e donos destas empresas que não enxergam ou não querem enxergar este gap que vai se formando ao longo do crescimento da empresa.

    A empresa pode ser de grande porte porém tem que agir e praticar como se fosse pequena para poder suprir estes gaps coisa que não vejo acontecendo.

  6. Adorei o artigo, e realmente acho que isso se da ao ficarmos preocupados com os detalhes do produto, se esquecendo que o cliente que tem que estar contente, e nao nos desenvolvedores com uma solução que seja muiti-plataforma e que utiliza as metodologias atuais, acho que tudo hoje é feito na correria sendo que a simplicidade de uma tela as fazes faz a diferença.

    Acho que metodologias para os desenvolvedores é uma ótima ideia, mas aplicar-se as empresas não sei se é uma boa, isso faz com que o produto seja mais voltado para o desenvolvedor do que para o cliente final. É so meu pensamento, e parabéns pelo artigo, acho que pelo que sempre vi nas empresas ai fora, quando se cresce se cria concorrencia entre os integrantes de uma equipe, e nao trabalho em equipe.

    At.

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