Crise de identidade em Agile – ou será novamente o Luddismo x Industrialismo?

A atividade de desenvolvimento de software, é uma coisa interessante e muito intrigante, pois como é uma atividade relativamente nova, ainda está cheia de indefinições e transformações sobre seus conceitos e práticas. Essa constante metamorfose é grandemente potencializada na área de metodologias, pois é aqui, que as questões humanas são mais evidentes nessa atividade.

 

Mas meu foco nesse texto é abordar as diferentes (e várias) visões que a agilidade (ou seus praticantes), têm acerca da atividade de software.

 

A primeira vista, podemos até achar que dentro da agilidade, seus praticantes e evangelizadores se dividem nos diferentes rótulos de metodologias existentes, como XP(Extreme Programming), FDD(Feature Driven Development), Scrum, Lean, OpenUP, MSF, etc. Essa primeira visão é em função dos grandes debates “sobre qual dessas metodologias é a melhor?” que incidem sobre a comunidade e o mercado.

 

Outra possível leitura, que devido ao conteúdo dos debates, podemos imaginar que a principal diferença é que talvez haja os agilistas mais ligados às questões técnicas e os agilistas mais ligados em questões gerenciais e como o mercado nos acostumou a tratar isso como duas coisas diferentes, criamos (pelo menos em nossas mentes) dois mundos totalmente antagônicos e passamos a chamar esses mundos de: operacional, tático e estratégico, e como temos algumas das metodologias acima que tratam de formas distintas essas questões, criamos então o cenário propício para a existência imaginária da “metodologia para os gerentes” e a “metodologia apenas para os programadores”.

 

Mas essa segregação apenas por rótulos ou por nível hierárquico, são na verdade apenas os efeitos visíveis, que ainda têm algumas outras causas que precisam ser mitigadas. Por exemplo: Será que uma das causas dessas segregações, é que algumas das metodologias citadas acima, oferecem uma visão mais artística, poética e um tanto artesanal e outras metodologias oferecem uma visão mais mercadológica, corporativa e industrial?

 

Observe que não estou sugerindo que um desses dois grupos é melhor que o outro, apenas mostrando algumas diferenças, que ultimamente estão ficando muito latentes na comunidade, inclusive, talvez essas diferenças não existam na prática, apenas é algo que as próprias pessoas da comunidade, estão criando entre si mesmas, pois como existem pessoas com tendências mais artísticas e outras com tendências mais industriais/corporativas, elas acabam “construindo muros” ao seu redor, para proteger suas idéias e suas crenças.

 

Na verdade, essa discussão entre o industrial e o artesanal, é algo muito antigo em nossa sociedade, pois a história mostra por exemplo, o movimento do Luddismo contra a Revolução Industrial que em meados do século XVIII, trouxe profundas questões sobre a relação do homem com as atividades produtivas que estavam surgindo.

 

Mas, conforme disse Domenico De Masi, em seu livro O Ócio Criativo, para esses antagonismos produzidos em nossa sociedade, devemos “Nem Rir nem Chorar mas Entender”, ou seja, dentro da comunidade de software, conforme já falei no artigo Os Moinhos de Vento dos processos ágeis, publicado no Blog Visão Ágil, não é saudável levar esse tipo de debate a nível da intolerância intelectual nos posicionamentos de euforia ou temor e sim entender de uma vez que: Não existe uma só forma de agilidade, que atenda a todos os contextos, por isso devemos estar dispostos a aprender continuamente sobre essas formas possíveis em cada contexto, mesmo que muitas vezes, elas ainda não estejam descobertas.

 

Veja que recentemente essas segregações ganharam muito fôlego, pois algumas antigas discussões como CMMI e Agile e o tipo de atuação da Scrum Alliance, voltaram ao cenário em nossas comunidades através do relatório do SEI sobre CMMI e Agile e através do contundente artigo “The Decline and Fall of Agile” do James Shore.

 

Porém, termino esse meu breve texto, lembrando que não estou aqui querendo dizer quem está certo ou errado, mas sim, para complementar o pensamento do meu amigo Alisson Vale em seu texto sobre O Dilema Ágil, quero propor uma reflexão:

  • Será que não há espaço para todas essas vertentes da agilidade?

  • Será que não podemos sair do Luddismo para o Lúdico? E reconhecer que para alguns contextos, o industrial é melhor que artesanal?

  • E será também que os industriais, não podem reconhecer que para muitos casos, o artesanal é mais aconselhável que o industrial?

 

Enfim, está lançado um desafio que talvez somente com o tempo, quando nossa área estiver mais madura, poderemos responder com mais clareza e acurácia.

 

Sobre o autor:

Manoel Pimentel, CSP

Manoel Pimentel, CSP

 

É Engenheiro de Software, com mais de 15 anos na área de TI, atualmente trabalha com  como Coach em metodologias para importantes empresas do segmento de serviços, indústrias e bancário.  É Diretor Editorial da Revista Visão Ágil, Possui as certificações CSM e CSP da Scrum Alliance e foi um dos pioneiros na utilização e divulgação de métodos ágeis no Brasil.
Contatos: manoel@visaoagil.com