Crie uma cultura baseada na transparência e confiança

Imagine ou lembre que você está solteiro e morando sozinho em sua casa… Conseguiu? Se sim, seja sincero comigo: Por quanto tempo você deixa sua casa bagunçada? Não saberei exatamente qual será sua resposta, mais de uma coisa estou certo: UM SOLTEIRO DEIXA A CASA BAGUNÇADA POR UM LONGO TEMPO.

Normalmente um solteiro só arruma a bagunça de sua casa, sempre que há uma necessidade iminente de receber uma visita qualquer (família, amigos, amigas, paqueras, etc.).  Dessa forma, vamos refletir um pouco: Qual o motivo de um solteiro fazer isso somente estimulado pela visita de alguém?  A resposta é pura é simples, O desejo de mostrar uma boa imagem para os outros.

Já falei um pouco sobre esse assunto no artigo Vencendo o estado de negação numa Sprint Retrospective, onde abordei algumas questões psicológicas referentes ao Ide, Ego e Superego, principalmente pela dimensão do superego, que é a instância da personalidade responsável pela projeção positiva de nossa imagem, orientada aos valores de certo e errado do universo social que estamos inseridos.

Outro aspecto psicológico interessante é o que ficou mundialmente conhecido como efeito Hawthorne, onde uma experiência realizada em 1927 com grupos de trabalhadores de um fábrica Norte Americana, mostrou dentre outras coisas, que os mesmos se comportavam conforme eram observados.

Existe uma dimensão muito perigosa nisso, pois é comum que ao somente arrumar a casa mediante a visita iminente de alguém, seja realizado uma falsa organização, onde é feita apenas uma espécie de maquiagem para disfarçar a real bagunça escondida dentro dos armários e gavetas.

Tendo em mente essa questão do comportamento orientado a observação externa, é muito comum as pessoas o trazerem para dentro das organizações, principalmente através de um isolamento em silos departamentais e ilhas de conhecimento, para que com isso, exista uma espécie de zona de conforto, capaz de absorver e esconder nossos erros e imperfeições.

Como você deve saber isso não é nada salutar para uma organização, pois normalmente esse ímpeto de varrer a sujeira para baixo do tapete, afeta negativamente a qualidade daquilo que a organização se propõe a fazer.

Observe que não se trata da idéia de não haver erros ou imperfeições, mas sim da falta de transparência nas organizações. E nesse ponto, lanço a seguinte reflexão para você entender meu ponto de vista: Quantas vezes você falou para o seu cliente (seja ele interno ou externo), o real motivo do atraso de uma entrega no projeto?

Muito provavelmente, você terá uma coleção de motivos (questões contratuais, concorrência, etc.) para não ser transparente com seu cliente, ou então, dentro da sua equipe, você tenha medo que descubram que está com alguma dificuldade em realizar terminada tarefa (medo de não parecer um bom profissional).

Talvez isso seja um desafio cultural muito grande, porém, para que exista de fato uma melhoria contínua, é necessária a construção de relações pautadas em transparência entre as partes de uma organização, para que de forma incremental, seja base para construção da confiança entre essas mesmas relações.

É importante ressaltar que havendo essas relações de confiança, inevitavelmente haverá menos necessidade de hierarquias, menos necessidade de formalização da informação, menos necessidade de autoproteção (o famoso CYA – Cover Your Ass) e principalmente haverá mais espaço para equipes auto-organizadas. De forma que uma vez configurado um ambiente como esse, temos uma organização em plena busca pelo estado Lean para o desenvolvimento de produtos/serviços com qualidade, de forma enxuta, com valor agregado e respeitando todas as pessoas envolvidas.

Para finalizar, lembre que essa transparência não é construída da noite para o dia, muito pelo contrário, é um processo lento e cheio de pedras pelo caminho. Porém, apesar de não haver uma receita de bolo para isso, a transparência é algo que construímos com pequenas ações diárias, como por exemplo: Estimular uma maior participação do seu cliente nos projetos, compartilhar as informações entre a equipe, diminuir o ruídos hierárquicos e principalmente, prover uma comunicação direta e mais face a face em todos os níveis de sua organização. Portanto, caso queira realmente resultados diferentes em sua organização, experimente antes de tudo (principalmente antes de pensar em metodologias), criar e estimular um ambiente de transparência e confiança para todos.

Leia também:
– Artigo: Confiança, o caminho para a agilidade,  por Felipe Rodriques,  5º Edição da Revista Visão Ágil.

Sobre o autor:

Manoel Pimentel, CSP

Manoel Pimentel Medeiros, É Engenheiro de Software, com 15 anos na área de TI, atualmente trabalha como Coach em Agile, Lean e TOC para empresas do segmento de serviço, financeiro e bancário. É Diretor Editorial da Revista Visão Ágil e Editor Chefe da InfoQ Brasil, Já escreveu sobre agile para importantes portais e revistas do Brasil e exterior e Também palestrou em eventos nacionais e internacionais sobre agilidade. Possui as certificações CSM e CSP da Scrum Alliance e foi um dos pioneiros na utilização e divulgação de métodos ágeis no Brasil.

Contatos: manoel@visaoagil.com

3 thoughts on “Crie uma cultura baseada na transparência e confiança

  1. Caro Manoel,

    Esse problema envolve uma cultura que nós mesmos (brasileiros) criamos chamada “Jeitinho Brasileiro”. Isso envolve não somente mudanças comportamentais no trabalho, mas na vida como um todo. E é isso que a agilidade trouxe para nós, uma maneira humana de pensar no trabalho que pode ser perfeitamente levada para nossa vida secular.

    Parabéns pelo artigo. Abraço

  2. Muito bom Manoel Pimentel!

    A cada dia percebemos que precisamos da equipe toda para ficarmos mais eficazes. Ou seja, quanto maior a confiança maior a transparência na equipe. O ponto fundamental de tudo isso, com certeza, está na comunicação de uso de máscaras e no comportamento nos momentos mais “íntimos” do dia-a-dia do nosso trabalho. Quanto maior a transparência melhora a confiança entre o pessoal da equipe.

    Seu artigo ficou ótimo Manoel!!

    Será que o brasileiro está preparado para ser transparente ou achamos melhor dar um jeitinho para levar vantagens?!
    Espero que esteja mudando rapidamente como acontece lá fora, todos estão buscando parcerias externas, pois internamente já existe uma confiança e transparência dentro da equipe.

    Um grande Abraço,

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