A empresa que copiava

Tive a grata oportunidade fazer parte do início das comunidades sobre metodologias ágeis aqui no Brasil, nessa época, ser Agilista era quase um sinônimo de maluquice, ou era preciso ter alguns atributos de iconoclasta para se conseguir atuar com Agilidade dentro das empresas.

Hoje, depois de um enorme esforço de muitas pessoas, temos muitos casos interessantes de adoção de  metodologias ágeis em empresas de diferentes segmentos e diferentes tamanhos aqui no Brasil e, isso trás um sentimento muito gostoso de vitória para nossa comunidade. Essa forte adoção foi possível por que cada caso de adoção, estimulou outras empresas a também adotarem alguma ideia da filosofia ágil.

Contudo esse cenário apesar de muito positivo, revela uma face muito triste do pensamento organizacional vigente em nosso contexto, onde a grande maioria dos gestores só passam a acreditar numa  determinada ideia, apenas quando outras empresas (de preferência maiores) começam a utilizá-la.

O mais engraçado nisso, é que muitas empresas possuem declarações de missões e valores que de alguma maneira contemplam o tema inovação e diferencial competitivo, ou seja, fica claro que existe uma discrepância entre o discurso e a prática, pois apenas pouquíssimas empresas criam idéias realmente inovadoras em seu campo de atuação.

Não estou falando aqui que inovação seja simplesmente você adotar uma ideia que acabou de conhecer, apenas por estar motivado pelo desejo de ficar de acordo a “nova onda”,  até porque, quando sua empresa pensar em adotá-la, muito provavelmente outras já o fizeram na sua frente,  mas sim,  inovação trata-se  de criar o seu próprio caminho para o sucesso (seja lá o que signifique ter sucesso para sua empresa).

O mais triste disso, é que essa cultura baseada em cópias, se espalha em elementos como identidade visual, estrutura organizacional, tipo de produtos e modelos de liderança.  E esse último ponto merece um especial destaque, pois como essa cultura de cópias, se inicia nas pessoas que lideram essas empresas, é muito natural que isso afete a sua atuação como um todo.

Mas apesar de parecer complexo, esse comportamento de copiar outras empresas possui uma explicação razoável, pois trata-se de uma característica puramente humana, onde nós temos a tendência natural de copiar modelos já consolidados, devido ao enorme medo que temos sobre o desconhecido. Então para evitar os resultados (bons ou ruins) do desconhecido, optamos na maioria das vezes, pelos caminhos já trilhados pelos outros.

Apesar dessa cultura da cópia poder beneficiar as boas ideias com maior número de adotantes, esse comportamento é de extremo perigo, pois estimula que essas organizações tomem caminhos sem ter uma consciência plena de sua necessidade e, sem estarem com um senso de responsabilidade por suas consequências.

É fácil notar que esse mesmo raciocínio do texto, se aplica a outros assuntos e em outros contextos, portanto, finalizo esse breve devaneio com o seguinte pensamento: Quando uma organização escolhe um caminho copiado de outra organização, pelo simples fato de desejar obter os mesmos resultados da organização “modelo”, automaticamente também está estimulando que os seus próprios resultados, estejam limitados até onde as outras empresas já foram. Sendo assim, que tal refletirmos um pouco sobre: Quais resultados nossas empresas estão desejando? Será que desejamos ter os mesmos resultados de outras empresas, apenas por que é mais seguro? Ou  o que realmente estamos fazendo para criar resultados diferenciados e inovadores?

Obrigado e até a próxima!

 

Sobre o autor:

Manoel Pimentel Medeiros (http://twitter.com/manoelp) É Engenheiro de Software, com 15 anos na área de TI. Trabalha como Coach (PPC) em Agile para empresas do segmento de serviço, financeiro e bancário. É Diretor Editorial da Revista Visão Ágil. Já escreveu sobre Agile e Coaching para portais e revistas do Brasil e exterior e também palestrou em eventos nacionais e internacionais sobre agilidade. Possui as certificações PPC da SBC, CSM e CSP da Scrum Alliance e foi um dos pioneiros na utilização e divulgação de métodos ágeis no Brasil.

10 thoughts on “A empresa que copiava

  1. Parabéns Manoel,
    Vejo várias empresas adotando Scrum, porque deu certo em outra empresa ou acham mais fácil.
    E perdem a chance de conhecer outros métodos como Lean, XP ou OpenUp.
    Quem não garante que outro método agil ou mistura trariam mais frutos para empresa? Só pode ser medo do desconhecido, ou do tempo de tentar aprender e conhecer.
    att.

  2. Não entendi qual o problema que o autor queria passar, pois o que ele chamou de cópia acontece no mundo inteiro e em todas as atividades de negócio.

    Sempre que um novo conceito, processo de negócio, tecnologia, etc. surge ele será testado por organizações que estão dispostas a correrem riscos, as chamadas “early adopters”, com objetivo de ganhar vantagem competitiva, ou seja, dinheiro. Depois de consolidado, esse novo conceito, processo, tecnologia, etc., é então adotado pelas empresas conservadoras. Isso é normal e até é discutido nos livros de gestão e administração de empresas, pois não é toda organização que tem fôlego para a cada novidade adotá-la logo de início, sem um case de sucesso ou insucesso.

    As empresas não copiam, elas seguem a líder, adaptando ao seu contexto organizacional.

  3. Alessandro, na verdade você compreendeu bem a questão, pelo menos tocou no ponto chave. Afinal, por que você acha que existem apenas pouquíssimas empresas com o status de líder? Ou melhor, por que que existe um verdadeiro rebanho de empresas seguidoras?

    Obrigado pelo comentário🙂

    Abs,

  4. Gostei do post provocativo.

    Eu faço um paralelo com o mercado financeiro de investimentos. De maneira simplista, a lógica é ter um percentual do seu capital total em investimentos mais conservadores e o restante em investimentos de mais alto risco. Vamos pensar em três tipos de investidores: os que arriscam muito, com 80% do seu dinheiro na bolsa de valores; os que arriscam menos com 30% em ações, 30% em fundos e 40% na poupança; e os que não arriscam nada com o dinheiro na poupança. Vamos descartar os malucos que deixam todo seu dinheiro na bolsa e os que o deixam debaixo do colchão.

    Convenhamos que é arriscado adotar uma estratégia mais ousada ou metodologias pouco consolidadas. Claro que há maneiras de minimizar o risco e que riscos maiores podem trazer maiores benefícios, mas ainda assim haverá um risco. Mesmo em empresas como Google e 3M, boa parte do seu negócio ainda terá uma base mais conservadora.

    Se a empresa não arriscar pelo menos um pouco não terá a chance de ter muitos benefícios e viverá naquele eterno marasmo. Se a empresa arriscar demais, pode comprometer todo seu patrimônio. Você pode fazer uma aposta nesta última, mas por favor, fuja das empresas que querem guardar o dinheiro debaixo do colchão e deixe que o mercado as engula!

  5. Brilhante Manoel. Parabéns!

    Compartilho da mesma linha de pensamento: http://blog.andrefaria.com/pergunte-se-por-que

    Devemos buscar nosso próprio caminho. Descobrir qual o significado de ter sucesso em nosso contexto. Olhar o que os outros estão fazendo, aprender com eles, e adaptar para nossas necessidades, sem no entanto perder o senso de investigação, risco e inovação.

    Na natureza cada semente deve buscar sua forma de crescer e se tornar uma árvore forte. Provavelmente nenhuma delas, mesmo que tenha origem na mesma árvore será igual, e cada uma precisará adaptar-se de forma diferente ao ambiente (mais seco, humildo, quente, frio, com mais sol ou sombra) para sobreviver. Por isso nada deve ser simplemente copiado nem forçado. Devemos fazer escolhas conscientes do porquê.

    Grande Abraço.

  6. Pingback: Podcast #7 – Lean Software Development « Blog da Bluesoft

  7. Alias somente scrum sozinho não adianta. É valido para gerência de projetos, porém falta a engenharia do software.

  8. Parabéns Manoel, excelente observação…a maioria dessas empresas são empresas que esqueceram que no seu início era preciso muita coragem e hoje elas andam apenas pelos passos dos corajosos!

  9. ola simpatizei mesmo muito o teu espaço Online!
    Estas a fazer um muito bom resultado, hoje sempre muito que escrever nos websites!
    Eu mesmo tenho um blogue de Fazer Dinheiro online sem deposito, passa la, e deixa tambem a tua opiniao em http://www.makingmoneyonline666.blogspot.com/
    acho que no teu espaço online so esta ausente uma tool de traducao. Vou ser o mais participante na tua comunidade!
    cumps

  10. Pingback: Podcast #7 – Lean Software Development | Blog da Bluesoft

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